Luanda 1996

Antes de aterrar no Aeroporto 4 de Fevereiro no dia 10 de Abril, há nove anos atrás, tentei recuperar ao máximo tudo quanto recordava de uma cidade espantosa.
Ia comigo a vontade de poder, mesmo que modestamente, contribuir para melhorar a limpeza urbana da cidade.
A minha frieza analítica e profissional e o africanismo, superavam largamente o ruído de fundo constituído por toda a lengalenga da «chapa 5», que o jpt tão bem descreve na sua Ma-Schamba, bem como a ideia estúpida e racista de que «não há pedra sobre pedra».
Luanda, entre a interrupção da Guerra Civil e o seu recomeço era, em 1996, uma cidade que denotava a grandeza que lhe conheci em meados da década de 70 e mostrava abundantemente todas as chagas derivadas dessa mesma guerra e do facto de as infraestruras da cidade, nomeadamente no saneamento, não suportarem mais que as 500.000 pessoas para as quais estavam dimensionadas.
O transporte do aeroporto para o local de acolhimento deu para fazer um primeiro balanço - infraestruras degradadas mas muito longe do cenário caótico que os «profetas da desgraça» sempre traçam.
Relembro desses momentos de reencontro o calor imediato do povo angolano, que já conhecia mas que, no meio de tanta tragédia, julgava ter sido duramente golpeado.
O povo angolano tem um orgulho e uma coragem inacreditáveis.
Recordo a viagem entre a Aeroporto e o local de alojamento e a música que ouvi - Song for Guy, por Elton John. Curioso, porque foram desta melodia os últimos acordes musicais que ouvi em Luanda quando, quatro mese e meio depois, parti.
Tive a felicidade de ficar instalado num «aldeamento» para cooperantes na Estrada de Catete, município de Kilamba-Kiaxi, muito perto já de Viana.
Poderá ser paradoxal dizer isso de um local em que estavamos guardados por «armários», de óculos espelhados, portadores de AK-47.
Tenho, para mim, que estando em contacto directo com o povo e tendo a percepção, por via organizacional das questões tecnicas e profissionais, podia ter uma visão mais perto da realidade do que teria se acaso ficasse, principescamente, instalado nalguma unidade hoteleira.
Verifiquei, na visita efectuada á cidade, nesse primeiro dia que, a limpeza urbana era bastante má mas havia ainda assim uma diferença - a «cidade de alcatrão» apesar de má, estava melhor que as áreas limítrofes, os musseques e os bairros populares.
Fiquei a saber que a minha missão era colaborar nos aspectos organizativos e operacionais da limpeza, no que diz respeito á «cidade de alcatrão».
Verdadeiramente pouco... mas verdade, também, que não havia nem meios, nem tempo para efectuar tudo o que deveria ser realizado.
Os documentos que ficam são aspectos desse trabalho.


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Sei que muitas alterações ocorreram. A limpeza deixou de estar a cargo da ELISAL. Sei que há muitas melhoria... no centro da cidade. Sei que muito está feito mas há uma imensidão de coisas por fazer. Sei que nos musseques continua quase tudo, invariavelmente, na mesma.

Melhores dias virão.
Sei que Luanda não era uma cidade suja e voltará a ostentar, para o bem dos seus habitantes, um ambiente mais limpo e saudável.

Esta «conversa» toda foi-me «sugerida» pelo post da amiga IO no seu laurentino e espantoso Chuinga pelas diferenças entre Maputo e Luanda.
Tinha que defender aminha «dama»!

Voltarei a Luanda e conhecerei Maputo e igualmente o, dizem, lindíssimo Bilene de quem a minha Maria «morre» de saudades.
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