Globalizado excluído















A
Carta
de
alforria
que
floriu
no templo
das proclamações
decretos
e
convênios
libertadores
murchou
desandou
como
a
flor
sahel

amnésica
ficou
sem
os
pergaminhos

globalizada

nos
grilhões
dos
novos
navios
negreiros
ressurge
sob formas
manhetas
manietada pelas
fronteiras farpadas
impostas por patriarcas ilusionistas
batutadores da escrita família
do comércio proteccionista de exclu$ão &
companhia Lda.



Tony Tcheca
in "Guiné sabura que dói" (2008)

Quando morrer

















Há vezes em que nem é a morte que se teme,
o seu sossego de cinza,
a sua solidão escura,
mas como se morre.

Quando morrer
quero fazê-lo sem rumor algum,
sem ninguém que me chore
ou a quem doa.

E queria a morte uma ave,
nocturna ave
sigilosamente partindo
para outro tempo.

Para morrer, fá-lo-ia
em total silêncio,
severo
e lúcido.



Eduardo White

Mulata
























Os teus defeitos são graças
que mais me prendem, querida...
Mistério de duas raças
que se encontraram na vida.

E, no mato, em nostalgia,
num exílio carinhoso,
fizeram essa alegria
do teu olhar misterioso.

E deram forma de sonho
em seu viver magoado
a esse estilo risonho
fizeram essa alegria
do teu corpo bronzeado...

Que é bem a grácil maneira
em que a volúpia se anima,
– bailado duma fogueira
queimando quem se aproxima!

.....................................................

A tua boca dolente,
cicatriz de algum desgosto
é um vermelho poente
no lindo sol do teu rosto.

E os beijos que pronuncias
são palavras dolorosas...
Teus beijos são tiranias,
são como espinhos de rosas...

Que me embriagam, amantes,
no éter do seu perfume...
Teus beijos são navegantes
sobre as ondas do ciúme.

.....................................................

Os teus defeitos são graças
desse mistério profundo…
Saudades de duas raças
que se abraçaram no mundo!



Tomaz Vieira da Cruz

Águas de Março




Tom Jobim / Elis Regina

"Stand by me" á volta do mundo




Fabuloso!!
Daqui por sugestão do amigo Aires Bustorff

Passei a Vida…
























Passei a vida a servir
os meus dias passei-os a chorar
no meu mundo
meu inferno.

Os braços trabalhando
para um mundo alheio
os meus dedos musicando
para o mundo alheio

Meu mundo
meu inferno.

E ainda choro hoje
mas de vergonha
de pejo
por ter vivido num mundo inferno
sem ter tido ao menos alma para morrer



Agostinho Neto

Nova Canção da Vida


















O meu ideal, a minha felicidade,
é ter uma cubata, mesmo ali
dentro do mato, longe da cidade,
mas sempre, meu amor, ao pé de ti.

O culto da cidade em desprezo do mato!
Eu não conheço nenhum mal maior.
O meu ideal é este, e nele me retrato:
– o mato, uma cabana, o nosso amor...

Ter um jardim cercando o nosso lar
(é lar uma cubata se Deus quer
que nela, sempre, o homem e a mulher,
em sonho e obra, sejam par e par);

ter lavras de feijão e de batatas,
de milho, de ginguba e de mandioca,
para nós dois e para quanta boca
de fome houvesse ali pelas libatas;

gozar o bucolismo das paisagens
(aqui, uma palmeira; além, uma mulemba...);
e admirar a loucura infantil dos selvagens
no prazer da rebita e da massemba;

ter mesmo ao pé da casa uma mangueira,
que desse sombra e fruto ao cansado viajor;
de dia, trabalhar em lida meeira;
à noite, adormecer na benção do Senhor...

– Vamos viver assim a vida inteira,
vamos viver assim, ó meu amor!



Geraldo Bessa Victor

Hier Encore




Charles Aznavour

O lado bom

















Foto de Pedro Norton de Matos em "Caminhadas e Descoberta em STP"





Quero ser uma ilha,
um pouco de paisagem,
uma janela aberta,
uma montanha ao longe,
um aceno de mar.
Quando precisares de sonho,
de um canto de beleza,
de um pouco de silêncio,
ou simplesmente
de sol... e de ar...
Quero ser o lado bom
em que pensas,
isto que intimamente
a gente deseja
mas nem sempre diz
- quero ser, naquela hora,
o que sentes falta
para seres feliz...
Que quando pensares
em fugir de todos
ou de ti mesmo, enfim,
penses em mim...



Millôr Fernandes

Que saia a última estrela ...
























Foto de Alla Chernova, via "O Jumento"



Que saia a última estrela
da avareza da noite
e a esperança venha arder
venha arder em nosso peito

E saiam também os rios
da paciência da terra
É no mar que a aventura
tem as margens que merece

E saiam todos os sóis
que apodrecem no céu
dos que não quiseram de joelhos
— mas que saiam de joelhos

E das mãos que saiam gestos
de pura transformação
Entre o real e o sonho
Seremos nós a vertigem



Alexandre O’ Neill

Deixem-me viver no meu mundo

















Já tão cansada desta vida pergunto-me como será a outra?
mais tranquila, mais segura?
dormente a minha parece estar,
olho a volta onde estou?
que mundo será este?
se não tivesse vivido o que vivi e o que sofri,
quem seria eu?
onde iria buscar toda esta vontade de correr,
os meus dedos que querem escrever, e tanto,
sou louca ou infantil?
ou por momentos deixo correr o meu pensamento,
e mostro ao mundo, o que me consome aos poucos,
a muitos aflige aos que dizem ser eu criança, insegura, imatura!
o que tanto escrevo?
deprimo-me,
deixem-me ...
deixem-me viver no meu mundo,
tornar falas todas as palavras ,
deixem-me no meu mundo doce e infantil, mas meu.



Sónia Sultuane

Negra
























Foto de "Angola em fotos"




I

Negra! negra! como a noite
duma horrível tempestade,
mas, linda, mimosa e bela,
como a mais gentil beldade!

Negra! negra! como a asa
do corvo mais negro e escuro,
mas, tendo nos claros olhos,
o olhar mais límpido e puro!

Negra! negra! como o ébano,
sedutora como Fedra,
possuindo as celsas formas,
em que a boa graça medra!

Negra! negra!... mas tão linda
co’os seus dentes de marfim;
que quando os lábios entreabre,
não sei o que sinto em mim!...

II

Se, negra, como te vejo,
eu sinto nos seios d’alma
arder-me forte desejo,
desejo que nada acalma;

Se te roubou este clima
do homem a cor primeva;
branca que ao mundo viesses,
serias das filhas d’Eva
em beleza, ó negra, a prima!...

Mas, se a pródiga natura
gerou-te em agro torrão;
s’elevar-te ao sexo frágil
temeu o rei da criação;
é qu’és, ó negra criatura,
a deusa da formosura!...



Cordeiro da Matta

Oração





















Senhor,
dá-nos o prometido no princípio
quanto os homens errantes no deserto
receberam de ti a obrigação;
dá-nos a terra fértil dos eleitos;
a pátria para o povo de escolhidos
que ainda não tem pão.
É a hora,
Senhor!
É a hora da estrela refulgir
guiando os passos do teu povo esparso
nas trevas desta noite de ganância
e dor
e confusão.
É a hora,
Senhor!
Dá-nos o prometido no princípio:
a terra da promissão.


Cochat Osório

Infância perdida




















xxxxxxxxxxxxxxxxxxxpara o Miau


Nesse tempo, Edelfride,
com quatro macutas
a gente comprava
dois pacotes de ginguba
na loja do Guimarães.

Nesse tempo, Edelfride,
com meio angolar
a gente comprava
cinco mangas madurinhas
no Mercado de Benguela.

Nesse tempo, Edelfride,
montados em bicicletas
a gente fugia da cidade
e ia pràs pescarias
ver as traineiras chegar
ou então
à horta do Lima Gordo
no Cavaco
comer amoras fresquinhas.

Nesse tempo Miau,
(alcunha que mantiveste no futebol)
nós fazíamos gazeta
da escola coribeca
e íamos os quatro
jogar sueca
debaixo da mandioqueira.

Era no tempo
em que Saraiva Cambuta batia na mulher
e a gente gostava de ver a negra levar porrada.

Era no tempo
dos dongos da ponte
dos barcos da bimba
dos carrinhos de papelão.

Como tudo era bonito nesse tempo, Miau!

E havia tua Mãe, Dona Mafalda
trabalhava nos Correios
era prima do Saldanha Palhares
aquele mulato grande jogador de futebol
do Portugal
e empregado do Banco.

Era no tempo do visgo
que a gente punha na figueira brava
para apanhar bicos-de-lacre e seripipis
os passarinhos que bicavam as papaias do Ferreira Pires
que tinha aquele quintalão grande e gostava de meninos.

Era nos tempos dos doces de ginguba com açúcar.

Mais tarde
vieram os passeios nocturnos
a Massangarala
e ao Bairro Benfica

E o Bairro Benfica ao luar
o poeta Aires a cantar
(meu amor da rua onze o seu colar de missangas…)

Tudo era bonito nesse tempo
até o Salão Azul dos Cubanos
e a Lanterna Vermelha – o dancing do Quooche.

Foi então que a vida me levou para longe de ti:
parti para ir estudar na Europa
mas nunca mais lhe esqueci, Edelfride,
meu companheiro mulato dos bancos de escola
porque tu me ensinaste a fazer bola de meia
cheia do chipipa de mafumeira.

Tu me ensinaste a compreender e a amar
os negros velhos do Bairro Benfica
e as negras prostitutas da Massangarala
(lembras-te da Esperança? Oh, como era bonita essa
mulata…)

Tu me ensinaste onde havia a melhor quissângua
de Benguela:
era no Bairro por detrás do Caminho de Ferro
quando a gente vai na Escola da Liga.

Tu me ensinaste tudo quanto relembro agora

Infância Perdida
sonhos dos tempos de menino.

Tudo isso te devo
companheiro dos bancos de escola
isso
e o aprender a subir
aos tamarineiros
a caçar bituítes com fisga
aprender a cantar num kombaritòkué
o varrer das cinzas
do velho Camalundo.

Tudo isso perpassa
me enche de sofrimento.

Diz a tua Mãe
que o menino branco
um dia há-de voltar
cheio de pobreza e de saudade
cheio de sofrimento
quase destruído pela Europa.



Ele há-de voltar
para se sentar à tua mesa
e voltar a comer contigo e com teus irmãos
e meus irmãos
aquela moambada de domingo
com quiabos e gengibre
aquela moambada que nunca mais esqueci
nos longos domingos tristes e invernais da Europa
ou então
aquele calulu de Dona Ema.

Diz a tua Mãe, Edelfride,
que ela ainda me há-de beijar como fazia
quando eu era menino
branco
bem tratado
quando fugia da casa de meus Pais
para ir repartir a minha riqueza
com a vossa pobreza.

Diz tudo isso a toda a gente
que ainda se lembra de mim.

Diz-lhes, diz-lhes
grita-lhes
aos ouvidos
ao vento que passa
e sopra nas casuarinas da Praia Morena.

Diz aos mulatos e brancos e negros
que foram nossos companheiros de escola
que te escrevo este poema
chorando de saudade
as veias latejando
o coração batendo
de Esperança, de Esperança
porque ela
a Esperança
(como dizia aquele nosso poeta
que anda perdido nos longes da Europa)
está na Esperança, Amigo.

Edelfride, você não chore
saudades do Castimbala
nem lhe escreva
cartas como essa
que são de partir
meu pobre coração.

Nesse tempo, Edelfride,

Infância Perdida
era no tempo dos tamarineiros em flor...




Ernesto Lara Filho

O Henda I Xala

















A loucura tocou as nossas mãos.
Súbitas luzes passam nos teus olhos.
O excessivo pudor nos aproxima:
Riqueza dos segredos revelados!

Não importa a incerteza e o impossível:
Deles e nós, conscientes, nos sorrimos.
Para além do momento, nós sabemos:
O amor ficará – O HENDA I XALA.



Mário António

Sobressalto

























Amor,
as luas mortas
caíram no segredo deste amor;
fujamos pela praia
embarquemos no vento!

As luas mortas
são mundos apodrecidos ...

O nosso amor balbucia
cantigas da era nova
e nas mãos
temos o húmus adubado e quente
para o jardim redolente
para a seara de pão
para a seara de amor...

Nada nos serve fugir
pior que fantasmas
são os miasmas
dos mundos apodrecidos...

Amor,
nos vales ermos, esquecidos
de toda a flor,
de todo o riso,
do amor ao amor,
das madrugadas e dos pássaros,
(fechadas todas as portas
ao susto e à escuridão,
com um beijo verde de esperança
cantando no coração)

Amor,
enterremos as luas mortas...



Lília da Fonseca

Tema de Natal





Salvem os Ricos




Olavo Bilac
Chegou a crise, não há razão para temer.

David Fonseca
É que nesta crise, o Teixeira dos Santos vai-nos proteger.

Ana Bacalhau
Mas neste mundo injusto, o dinheiro está garantido.

Angélico
Como o bodo para o pobre, o remediado, e o sem abrigo.

Bob Dylan
Mas pensa naqueles, os multimilionários.

George Michael
Baby. Ficaram sem Bancos, e sem juro dos salários.

Sérgio Godinho
E sem direito a indemnizações, tem que pedir o aval,
à sopa dos pobres dos ricos: o Banco de Portugal.

Rui Reininho/Ana Bacalhau
O desespero tomou conta de toda a Quinta da Marinha.

Rui Reininho
Em vez de lavagante, comem lambuginha.

Bill Kaulitz
E vão ter de abandonar o Conselho de Estado.
O quadro do Miró foi penhorado.

Adriana Calcanhoto
Porque esse Portugal já não é neoliberal.

Zé Pedro/Bill Kaulitz/George Michael
Saberão que estamos no Natal.

Axl Rose
Oiçam bem.

António Calvário
Eufemismo dos milhões.

Axl Rose
Opulência.

António Calvário
Tratou-os como aldrabões.

Axl Rose/António Calvário
Saberão que estamos no Natal.


Refrão

Salvem os ricos.Salvem os ricos.
Salvem os ricos, ajudem os milionários.
[repete]



Contemporâneos

A fome que te tenho

























Foto de Tuta, aqui




A fome que te tenho, descontrolada,
de te ter, o de te possuir,
o meu corpo, fogo... ardendo, queimando,
torna-se num imenso doloroso, num profundo,
os meus olhos vagueiam, olho-te,
o meu pensamento voa,
os lábios incham, a face dói,
a língua esculpida na tua, toca-te, engole-te,
o meu corpo procura-te para o arrepiar,
do sangue fervendo,
esta fome insaciável,
o leve,
o leve deste papel onde agora te sinto
sem o peso que é isso.

Sangue meu, meu sangue, ferve, ebule,
o meu corpo arrepiado, o meu ventre contorna-se,
o suor corre suavemente,
a minha boca seca,
as palavras, essas, perdem-se pelo espaço,
esse torna-se tão pequeno,
não consigo respirar,
o corpo esta pregado,
não sei saber qual o passo a seguir,
não posso mais,
o pensamento pasmo e susto,
o desejo grande, profundo,
a vontade de chorar, a vontade de fugir,
de não repartir o mesmo espaço,
essa química de todos os sentidos,
fundidas em desespero completo,
perdi-me...




Sónia Sultuane

O pássaro



















Quando ele apanhou o pássaro
cortou-lhe as asas.
O pássaro voou mais alto.

Quando voltou a apanhar o pássaro
cortou-lhe as patas.
O pássaro deslizou como uma barca.

Furioso, cortou-lhe o bico.
O pássaro cantou com o seu coração,
como canta uma harpa.

Então cortou-lhe o pescoço.
E de cada gota de sangue
Saiu um pássaro mais brilhante.

Nada continua a ser mais caro,
ao Poeta, que a liberdade.




Maurice Carême
Tradução de António Ramos Rosa

Alma negra




















Diz-se que o homem negro não tem alma,
ou antes que tem alma tão bisonha,
tão grosseira, tão vil... – Há quem suponha
que o negro só se exalta, e não se acalma:

que só conhece o vício, e não a palma,
a crença bruta, e não a fé risonha;
em suma, que não ama, que não sonha,
com paz divina, com divina calma.

Há quem apenas veja, meramente,
que a África é o sol do meio-dia,
– terra queimada pelo sol ardente.

Há quem não saiba ver ou avaliar
toda a celeste e lírica poesia
duma noite africana de luar...




Geraldo Bessa Victor

Beijo sem Nome






















Quando te disse que era da terra selvagem do vento azul e das praias morenas...
Do arco-íris das mil cores, do sol com fruta madura e das madrugadas serenas...
Das cubatas e musseques, das palmeiras com dendém,
das picadas com poeira, da mandioca e fuba também...
Das mangas e fruta pinha, do vermelho do café,
dos maboques e tamarindos, dos cocos, do ai u'é...
Das praças no chão estendidas com missangas de mil cores,
os panos do Congo e os kimonos, os aromas, os odores...
Dos chinelos no chão quente, do andar descontraído,
da cerveja ao fim da tarde, com o sol adormecido...
Dos merengues e do batuque, dos muxiques e dos mupungos,
dos embondeiros e das gajajas, da macanha e dos maiungos...
Da cana doce e do mamão, da papaia e do cajú...

Tu sorriste e sussurraste...
- Sou da mesma terra que tu!




Ana Paula Lavado


Trancrito, com a devida vénia, do magnífico "Shelling Memories"

O Amor e o Futuro

























Foto de "Angola em fotos"





Calar
esta linguagem velha que não entendes
(Tu és naturalmente de amanhã
como a árvore florida)
e falar-te na linguagem nova do futuro
engrinaldada de flores.

Calar
esta saudade velha
e a nostalgia herdada de brancos marinheiros
e de escravos negros
de noite sonhando lua
nos porões dos negreiros.

Calar
todo este choro antigo
hoje disfarçado em slow, bolero e blue
(Teu sentimento
e esta pressão dorida que não mente:
teus seios contra o meu peito
a tua mão na minha
o calor das tuas coxas
e os teus olhos ardentes...)

Calar tudo isso
(Tu és naturalmente do futuro
como a árvore florida)
e ensaiar o canto novo
da esperança a realizar.
Cantar-te
árvore florida
espera de fruto
antemanhã

Nascer do Sol em minha vida.



Mário António

Decálogo de Lenine























1 - Corrompa a juventude e dê-lhe liberdade sexual;
2 - Infiltre e depois controle todos os veículos de comunicação de massa;
3 - Divida a população em grupos antagônicos, incitando-os a discussões sobre assuntos sociais;
4 - Destrua a confiança do povo em seus líderes;
5 - Fale sempre sobre Democracia e em Estado de Direito, mas, tão logo haja oportunidade, assuma o Poder sem nenhum escrúpulo;
6 - Colabore para o esbanjamento do dinheiro público; coloque em descrédito a imagem do País, especialmente no exterior e provoque o pânico e o desassossego na população por meio da inflação;
7 - Promova greves, mesmo ilegais, nas indústrias vitais do País;
8 - Promova distúrbios e contribua para que as autoridades constituídas não as coíbam;
9 - Contribua para a derrocada dos valores morais, da honestidade e da crença nas promessas dos governantes. Nossos parlamentares infiltrados nos partidos democráticos devem acusar os não-comunistas, obrigando-os, sem pena de expô-los ao ridículo, a votar somente no que for de interesse da causa socialista;
10 - Procure catalogar todos aqueles que possuam armas de fogo, para que elas sejam confiscadas no momento oportuno, tornando impossível qualquer resistência à causa...



Vladímir Ilich Uliánov (1913)



Apliquem-se estes princípios a qualquer sector em particular (ao da limpeza em Lisboa, p.e.).
Recue-se uns anos ao consulado de Rui Godinho.
Pense-se no que então não foi feito (e podia ter sido)... no que desde então não pôde ser feito (porque não interessava fazer).. e no que não devia ter sido feito (e foi...)
Pense-se no desinvestimento e na penúria por que o sector passou desde então...
Pense-se que a "invenção" da ABC (Associação Baixa Chiado) é do tempo do edil do PCP á frente da limpeza.
Calcule-se que já datam dessa altura os primeiros passos no sentido de privatização.
Some-se a isto a luta desigual (e desleal) que os muitos e bons funcionários que a CML possui travam contra o labéu de que tudo o que é privado é melhor (não sendo esclarecido se é mais barato ou não, se os serviços apresentam melhor prontidão ou qual o grau de eficiência).
Acrescente-se ser este um trabalho duro e mal pago.
Tome-se em conta que as reformas antecipadas e a melhor remuneração no sector privado tem vindo a esvaziar o sector de profissionais.
Sabendo-se que a sua não substituição, além de imperativo legal, serve os propósitos de todos quantos pretendem entregar de bandeja o sector a privados... E quanto pior estiver mais fácil e mais barato (politicamente) se torna.

Julgo ser compreensível o descontentamento do pessoal de limpeza da capital pelo abandono de que tem sido vítimas. Muito, mas muito pior, que o simples facto de ganharem mal...

É óbvio para todos que o processo que está em marcha não terá retrocesso e que dentro de muito poucos anos serviços básicos de uma cidade serão entregues á gula de quem tem como único objectivo o lucro.. e não o serviço público.

Por muito menos que um pataco ver-se-ão, como MF Leite diz com alguma dose de xenofobia, grandes contributos para o combate ao desemprego nalguns países, "toneladas" de trabalhadores mais mal pagos que os actuais mas que darão uma ideia de eficácia e omnipresença que serão sempre fantasiosos... para quem sabe e tranquilizadores para... quem não conhece.

A decisão é legítima por parte da CML mas não há qualquer necessidade de se escudar em pretensas experiências... Não é isso que pretendem, não é isso que vai acontecer... e todos o sabem!

Fica apenas como lição o aproveitamento deste "Decálogo de Lenine" para todos os fins, por todos os quadrantes...
Há muito que o pragmatismo (eufemismo de muita coisa...) tomou conta do espectro político-partidário. Não interessa muito o que possa acontecer desde que todos tenham o seu proveito.

O PS conseguirá libertar-se de um sector muito visto e presente junto da população e que foi propositadamente ao longo dos anos desprotegido e coberto de dificuldades e calúnias.
O PCP - que nada fez antes a não ser ajudar o processo! - conseguirá, por muito tempo (mas sobretudo agora...) capitalizar o descontentamento de um sector infiltrado por si e votado ao abandono.
Dos outros não reza a história... Cavalgarão a onda sempre que lhes aprouver, sempre que o benefício seja maior que o custo.

Nuno Krus Abecasis, que fez deste sector um dos mais dinâmicos e organizados da CML e por quem mais carinho tinha, diga-se também, deverá ter dado já muitas cambalhotas no seu túmulo.

Para se perceber a hipocrisia reinante deixo aqui alguns tópicos respigados em alguns sítios que falam do assunto:

Em O Jumento


Caro Jumento

eu concordo f àcilmente, que uma greve convocada sem objectivos claros de reivindacão laboral é uma vergonha.E tamb ém concordo que o PCP anda deslumbrado com o apoio que as últimas greves têm tido por parte das respectivas classes.Mas isso é uma coisa( que se deve denunciar), outra coisa é tentar saber o que se passa realmente. Além disso, eu que comecei a visitar este blog há relativamente pouco tempo, noto uma certa agressividade e também leviandade nos seus comentários ao PCP.
José Leitão 12.10.08 - 6:18 pm


Caro Jumento

Isto como em tudo na vida o PCP/STAL tem dois pesos e duas medidas san ão vejamos há diferenças onde o PCP é poder e onde o PCP é oposição , onde o PCP está no poder o STAL dá cobertura como na C.M.PALMELA em que esta já privatizou alguns circuitos e não vimos o STAL fazer nada em prol dos trabalhdores e quando confrontado com esta situação os dirigentes do STAL refugiam-se de que esta é uma situação pontual mas já lá vão 3 anos o mesmo acontece com a manutenção dos jardins que já estão privatizados em cerca de 90% assim como outros serviços´, aqui em PALMELA funciona a logica partidaria é a vida dois pesos e duas medidas
foliveiracontente 12.09.08 - 11:44 pm


Em Der Terrorist



Em resumo... por ser necessário aos propósitos a atingir... A luta continua!


Por ser representativo da forma de actuação... deixo-vos com uma foto de alguns "monges budistas" no Tibete após retomarem o seu "hábito" normal de soldados.


Como se não o soubessemos!







O que importa se te vais



















O que importa se te vais,
se ficaras sempre dentro de mim,
o que importa se este oceano que é a vida seja longo,
se mais longo consegue ser o meu amor por ti,
o que importa se esse oceano um dia te tenha roubado,
se um dia uma gota em mim tenha deixado,
a minha sede tenha matado,
bebi algo puro e belo,
que importa se esse oceano me haja abandonado,
e a minha gota houvesse levado,
mas se esse gosto em mim tenha ficado cravado.




Sónia Sultuane

Posse




















Foto de aoluar, aqui




Deitei-me sobre o teu cansaço,
na esperança de trazer-te o descanso
que há tanto tempo em vão procuras.

Cobri teu corpo
e tive-te, e perdi-te ao alvorecer,
quando tudo se confunde
e a noite é dia, e o dia é noite,
e as estrelas são o instrumento
dos nossos sonhos e dos nossos êxtases.

Encontrei-te depois,
quando te perdeste e me encontraste também,
e já o dia amanhecia outra vez…



Anny Pereira

Minha Angola




Sam Mangwana

Declaração




















As aves, como voam livremente
num voar de desafio!
Eu te escrevo, meu amor,
num escrever de libertação.

Tantas, tantas coisas comigo
adentro do coração
que só escrevendo as liberto
destas grades sem limitação.
Que não se frustre o sentimento
de o guardar em segredo
como liones, correm as águas do rio!
corram límpidos amores sem medo.

Ei-lo que to apresento
puro e simples – o amor
que vive e cresce ao momento
em que fecunda cada flor.

O meu escrever-te é
realização de cada instante
germine a semente, e rompa o fruto
da Mãe-Terra fertilizante.



Agostinho Neto

o paraíso nós o perdemos em busca do corpo























Foto de "Angola em fotos"





Dos teus medos desliza a serpente nativa
esta se ausenta dos nossos murmúrios
e o seu rasto cega-nos.

Nesse pasto cheguei depois de ti
e já o mundo perdido, amava.
Canções do corpo suspiravam
de atentos tambores urdidos no esquecimento.

Os frutos insaciáveis repartidos em nós
e o hino húmido de palavras que nos excitam
são palavras desafortunadas,
comemo-las e fenecemos.

O paraíso era apenas uma ideia
que ainda nos deixa de bocas aguadas.
Por agora busque-me, contigo moverei
a serpente nativa.



João Tala

Dez grãozinho di terra





















Es dez grãozinho di terra
Qui Deus espadjá na mei di mar
És é di nós és cá tomado na guerra
É Cabo Verde terra querida

Oh Cabo Verde terra 'stimada
Terra di paz terra di gozo
Tude quem djobel na sê regoge
El ca ta bai, el crè ficá
E s'el mandado el ta tchorá

Tchorá sodadi di bôs morenas
Quês ta levá na pensamento
Tchorá recordaçons eternas
Di tempo qui ca tinha sofrimento

Ma mi'm tem fé na Noss Senhor
M'ês vida c'a bai sempre assim
M'el ta libiano di tudo nôs dor
Pês sofrimento podê tem fim



Jotamont

Obama e um acto de cultura universal





















Por Manuel Rui, gentilmente enviado pelo amigo Aires Bustorff





Eu sempre me confundi na realidade com a utopia. Ou na insatisfação constante como forma quase de fingir felicidade na busca, na procura e imitação de coisas muito simples como o voar dos pássaros, o declinar do sol, o brilho das estrelas e o mistério das conchas que aconteciam com os meus pés à beira mar na areia. Sempre não me conseguindo encontrar com o paraíso do infinitamente bom e infinitamente belo para todos, quase desinfinitando a morte que é o único lugar infinito mas parte da vida, o infinitamente belo que até poderia ser um contraste com o infinitamente bom que sempre para mim ficaram sem ser, iguais à inexistência ou à infelicidade de não procurar mais nada, muito antes da nostalgia ou depois da saudade da morte.

Afinal viver é também não imaginar aquilo que pode acontecer enquanto estamos vivos. Só que eu nunca pensei que em vida, para além de tanta coisa que estava, ainda que muito longe, mas no horizonte por detrás da noite e da nuvem, pudesse ainda ter vivido sonhos, porque a minha geração viveu sonhos depois de os ter sonhado no passa-palavra de muitos silêncios. E também viveu a morte de muita alegria triste.

Mas agora era demais. Numa data e hora em que um grande amigo meu fazia anos. Quatro de Novembro. Eu a telefonar-lhe e ele quase ou mesmo esquecido do seu aniversário por causa de OBAMA.

Era algo que nos tocava e falámos ao telefone. Porque era uma coisa que estava impensada no nosso tempo. A utopia tinha ultrapassado a nossa imaginação. Já não era tanto uma eleição ou uma vitória. Fazia semanas que vivíamos a novidade. Principalmente porque OBAMA falara mais ou menos que se mudarmos a sala podemos mudar a casa; e se mudarmos a casa podemos mudar a rua; e se mudarmos a rua podemos mudar a cidade; e se mudarmos a cidade podemos mudar o estado; e se mudarmos o estado podemos mudar o país; e se mudarmos o país podemos mudar o mundo.

OBAMA, em gesto de sagrado, no discurso de Filadélfia, tirou o pé do tiro do reverendo Jeremiah Wright. Embora o reverendo tivesse razão mas era uma razão da memória e da injustiça. Uma razão sobre os que haviam sido negados como pessoas, deixando suor e sangue nas plantações de tabaco e açúcar. Uma razão que podia ser entendida como rancor.

Nesse discurso, OBAMA trouxe uma utopia ligando a jovem Ashley e um mais velho que estava ali por Ashley estar.

No dia e hora em que escrevo este texto ainda não sei se OBAMA ganhou. Mas não é tanto por isso que estou a escrever. É mais por causa do outro que nunca percebeu que eu existo e ele só pode ser também se deixar de estar assim para podermos ser todos.

OBAMA tem um significado do maior acto de cultura universal do início deste século. No século passado, quem tinha televisão ficou uma noite inteira à espera que um homem pisasse a lua.

Neste princípio de século, OBAMA conseguiu criar uma energia, um astral de muitas mãos inteiras pelo pensamento de pessoas de todas as partes do mundo, numa corrente parecida com uma constelação de paz sem fronteriras. E Isso é um acto de cultura que vai ficar.

Não importa que este Messias traga milagres. Importa é o milagre cultural de pôr uma boa parte do mundo inteiro a olhar para ele como um salvador e perder uma noite só a olhar para um televisor como se OBAMA fosse uma madrugada.

No século passado, foram à lua. Agora OBAMA parece que desceu da lua e chegou à terra.

No século passado foi Mandela.

Mas antes de Mandela, o reverendo Luter King já tinha orado que tinha um sonho. O reverendo foi assassinado por causa do sonho.

Mandela tornou realidade um bocado do sonho do reverendo. Por cima de tanta memória que sobrou para os blues.

OBAMA acrescenta mais um bocado de realidade ao sonho do reverendo.

Como Agostinho Neto deixou escrito:

E DO DRAMA INTENSO
DUMA VIDA IMENSA E ÚTIL
RESULTOU CERTEZA

AS MINHAS MÃOS COLOCARAM PEDRAS
NOS ALICERCES DO MUNDO
MEREÇO O MEU PEDAÇO DE PÃO.







Manuel Rui