Ode solitária





















Misturam-se as ideias num concerto atonal,
esvoaçam palavras com a brisa que vem da chana.
Palavras de mensagem que perderam o Norte
como grãos de uma areia leviana
varrendo a paisagem matinal
dum Namibe que cheira ainda a morte.

A solidão do poeta
na sua casa assombrada,
tem a dimensão abissal
dum Kombaditókua no deserto.
Murmúrio de uma vida asceta
com factos cheios de nada,
regressos e batalhas adiadas,
vitórias apenas vislumbradas,
ladainhas de aprendiz de profeta
com uma voz de modelar incerto!
Na casa assombrada do poeta
a maravilhosa criança morreu no feto.

Lá fora ribomba o temporal.
Trovões, aguaceiros, vento em rabanadas
que ameaçam cada vez mais perto
empapando os caminhos da História!
Tempo imoral de fantasmas de gesta
que correm do passado para o futuro.

E a solidão do poeta no ermo da sua casa,
no beiral da tempestade em festa,
entre quatro paredes que não têm tecto,
sobrevive como a estátua equestre
duma velha fraternidade
desprovida de objecto.
Nem mesmo a multidão que manifesta
os formidáveis ideias que já perdeu,
que recita as palavras de ordem
de uma ordem senil e diluída
como a prece do moribundo ateu
que pergunta por deus no fim da vida,
vence o medo e ultrapassa a musa
que pouco a pouco se entranhou de desgraça.

A solidão verdadeira do poeta,
no abraço da multidão confusa
é a solidão de toda a massa
de um povo heróico que perdeu a meta.



Henrique Abranches
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2 Responses
  1. Ana Says:

    Há muito tempo que passo por aqui.

    Hoje venho apenas convidar-te a participar nesta página

    Ritmos Africanos

    Por enquanto só existem músicas mas poderia acrescentar um espaço para colocares poesias de poetas angolanos devidamente ilustradas com as imagens que entenderes.

    O que dizes?

    Tudo de bom.


  2. Ana Says:

    É melhor deixar só o endereço.

    :-)

    http://rafricanos.no.sapo.pt/ritmosafricanos.html

    O anterior abre nesta janela dos comentários. Não se vê muito bem