Três visões do inferno























NOITE INFERNAL



Esta mágoa em noite de cacimbo
martela lentamente o pensamento
no instante em que ruge o avião
partindo o silêncio com estrondo...
as bombas vomitando o fogo
que a combustão do napalm espalha
nas aldeias de fantasmas famintos
que matam todas as esperanças
da gente pobre e franzinas crianças
que tentam fugir de qualquer jeito
- vergonha da pátria sem o proveito!


Meus olhos brilharam de espanto
ao verem a sanzala em chamas...
ali sufocadas no calor das labaredas
ficaram as crianças de choro abafado,
bombas a rasgar sulcos nas veredas
por onde se arrastavam os corpos
queimados num sofrimento danado.


Quando a consciência salta o orvalho
por um lapso de tempo vi o inferno
com as bombas riscando os céus...
o rebentamento de efeito medonho
rasgou as palhotas com gente dentro
e o aniquilamento daquela sanzala
deixou-me preso à sequência da morte
com a garganta presa e sem fala.


Um cheiro intenso ataca as narinas
perde-se a seiva nas balas de fogo
e dilui-se o medo do alastramento
de tantas queimadas feitas à toa...
o absurdo de quem manda no jogo
está muito longe, talvez em Lisboa!



Joaquim Coelho
Onzo, 1962
in "Espaço Etéreo"




ALDEIA QUEIMADA




Mas
nas noites
desparasitadas de estrelas
é que as hienas
actuam.

É
de cinzas
o vestígio das palhotas.



José Craveirinha
in "Babalaze das Hienas"





AUTOBIOGRAFIA



Não existe mais
a casa onde nasci
nem meu Pai
nem a mulembeira
da primeira sombra.

Não existe o pátio
o forno a lenha
nem os vasos e a casota do leão.

Nada existe
nem sequer ruínas
entulho de adobes e telhas
calcinadas.

Alguém varreu o fogo
a minha infância
e na fogueira arderam todos os ancestres.



Costa Andrade
In “Palavra de Poeta”
1 Response
  1. Um "Big Bang" prosopoético de uma demonstração da animalidade que teima sempre em tomar conta de alguns "Homo Sapiens".
    Há como que uma verdadeira e cruel Universalidade rasgando sempre o ventre das várias culturas desde os nossos primórdios.
    A mim, resta-me pedir o perdão dos vitimados.
    Um bem haja a quem tem a sensibilidade para nos lembrar estas coisas.
    Kimangola