(primeira fase do amor terapêutico)

















Não é difícil arrumar um poema
que te leve aos poucos para a enorme noite;
ter-me-ás de novo. Boa sorte.
E a lua próxima de ti.
Fogo contigo. Os luares enchem-te o corpo.
Divindades e mãos masculinas abrem-te conchas.
E os frutos prestes a encher a terra.
Não cairás porque o chão aproxima-se de ti;
como fruto ofereces-te à terra.
Prestes a abrir-se o poemário. O pomar.
O pêndulo: as mamas em pertubação.
Repetes o torpor do clímax. Não me ouves?
As mãos acumulam orgasmos contadinhos,
entrego-tos como vinho beberás
tardes tropicais iguais à sobrevivência;
tardes que povoam de emgriaguez um mundo
e o fundo da época. Tardes de brasa
em teu fundo frio.



João Tala

os mortos não dormem
























Os mortos não dormem são quissanjes
de profundos teclados em repouso
Atravessam levemente o rio
da eternidade e a sua voz levita e é o maximbombo
de um certo munhungo extraterrestre
Discam os signos da noite
nas grandes mansões em que sonhamos
Os mortos não dormem caminham
connosco vivendo a vida que esquecemos


José Luís Mendonça

Ainda Não Fiz Um Poema De Amor























Foto de Vitaly-Sokol, via "O Jumento"




Falta-me fazer o poema de amor
Consciente,
Sentindo os pés bem firmes na terra
E o sexo como a semente
Que promete em breve ser uma flor.

Falta-me fazê-lo
E mandá-lo à noite
Quando o corpo dela nu
Se mirar nos vidros da janela
Fugindo das roupas que o prendem.

Depois colher a flor
Como a ave que leva no bico
Uma palha para o ninho,
Ou como o viajante sequioso
Que bebe na fonte do caminho...



António Cardoso

The ball




Orlando Mesquita

Je ne regrette rien




Edith Piaf & Isabelle Boulay

Adultério Literário



















Alguém me disse que pareço mais velho
Sinceramente acho que sim
Fui envelhecido pelas muitas vidas que vivi
Já fui viajante, religioso,
Revolucionário, músico,
Louco... e até trabalhador.


Hoje sou poeta, faço versos
Uso as palavras
Sou possuído por elas
Tomam-me de assalto
E quando percebo, escrevo
Saem de mim correndo
Para encontrarem seu papel
São como as espumas
Que o mar não consegue esconder,
Brotam, esbravejam, quebram


Tenho um caso de amor com as palavras
Um romance secreto, adultério
São minhas amantes caladas
E me cobram encontros noturnos
Na calada da noite, na praia...
E eu vou, contestando a moral
Ao encontro fugaz dessas doidas
Que me enchem a mente arredia
Fazendo de mim refém
Se não escrevo, maltratam-me
Pois não saem da cabeça


Tenho que escreve-las, me ordenam
Dominam-me, como na cama
Domina a mulher sorrateira
Enlouquecem-me até que de gozo
Chego a explodir muitas delas
Prazer, choro, alívio
Elas já não me aprisionam
Agora me deixam livre...
Livre ???


Daqui a pouco começa tudo de novo...




José Barbosa Júnior

Sócrates...é responsável pela gripe H1N1




Absolutamente fantástico!!!

Lisboa - 1971
















A Ovídio Martins e Osvaldo Osório





Em verdade Lisboa não estava ali para nos saudar.
Eis-nos enfim transidos e quase perdidos
no meio de guardas e aviões da Portela.

Em verdade éramos o gado mais pobre
d'África trazido àquele lugar
e como folhas varridas pela vassoura do vento
nossos paramentos de presunção e de casta.

E quando mais tarde surpreendemos o espanto
da mulher que vendia maçãs
e queria saber donde... ao que vínhamos
descobrimos o logro a circular no coração do Império.

Porém o desencanto, que desce ao peito
e trepa a montanha,
necessita da levedura que o tempo fornece.

E num caminhão, por entre caixotes e resquícios da véspera,
fomos seguindo nosso destino
naquela manhã friorenta e molhada por chuviscos d'inverno



Arménio Vieira

Companheiros






















Vinde companheiros!
Que os vossos braços se abram
Aos nossos braços de amigos.

– Toma uma cadeira. Senta-te. Conta:
Desditas, anseios, desventuras
e desse fulgor ardente que se adivinha
no teu olhar, cavado das viagens,
como uma estrela numa noite morta...

Nós somos todos irmãos.

Ah, quando te invadir a solidão
e olhares à volta e sentires apenas
a presença perturbável dos teus ombros,
não estás só!
Vem até nós.
Estarás comigo.
Não será morta, a morta esperança
do teu olhar sem luz.

Mas, que fôlego ingénuo na aventura
te lançou em tão inóspitos lugares
deixando assim o teu lar, amigo?
Não contes, eu sei qual foi. Foi
essa vontade de produzir, de criar, de vencer...

Oh! nossa terra, oh nossa mãe!
Como se casam em nós os prodígios
da tua natureza forte!
O húmus inculto das florestas
brota em nós, freme em nós, canta em nós
no grito de todos os gritos,
na ânsia da tua descoberta!...
O amor dos nossos corações
transborda da nossa alma
como a força impulsiva dos teus rios...

Vês, companheiro, eu sou teu irmão,
toma a minha mão, dá-me a tua mão.




Alexandre Dáskalos

























Ilustração de Albano Neves e Sousa



2


E sentado na beira do passeio,
um operário aguarda,
pensa
e esquece.
(Cuidado!
Como ele não aprendeu boas maneiras
e não pode comer o que precisa,
é capaz de tornar-se perigoso.
Pelo menos parece).



Cochat Osório

in "Cidade" (1960)

Juro













Por tua culpa, Mulata,
Meu coração
Anda à toa
Sem saber onde se acoite.
Perdeu-se na escuridão
Dos teus olhos cor da noite.

Por tua culpa, só tua culpa,
Pois sei que foi causa disso
O feitiço
Do teu corpo.

Mas... Deus é grande
E... talvez
Ainda voltes outra vez
A abrasar-te em desejos,
Quianda dos meus amores.

Nesse dia
Hei-de cobrir o teu corpo
Com um vestido de beijos
E um manto de carícias.
Hei-de esmagar contra a minha
A tua boca vermelha.

Será nesse dia, então
Que terei onde me acoite,
Mesmo na escuridão
Dos teus olhos cor da noite.



Aires de Almeida Santos

Diz Que Me Amas

























Foto de Tuta, em Olhares





Diz que me amas sussurras
imploras exiges
berras
com todas as vísceras
diz diz que
me amas quem sou o que sou
furas-me
o peito
com tuas unhas azuis
quem sou eu nada tudo tua
diz que me amas explodes
porquê porquê
quem és tu de que limbo
surgiste anjo contumaz
de que noite
atávica que flores
são estas
que irrompem de teus dedos
que pavor assoma aos
meus olhos quando
me amas diz
diz que me amas porque
me amas diz dizes xingas
e desfaleces
alegre &
triste pois
eu não tenho respostas prontas
eu apenas
te amo
pronto pronto.



João Melo

Nas curtas horas























Nas curtas horas realmente longas
cada minuto um porquê da tua ausência
cada instante o desejo visceral da tua presença

Nas curtas horas realmente longas
ao afagar o sussurro da tua voz suave
ela ribomba como o trovão
como ondas iradas sob tempestade
aos ouvidos impacientes da ânsia.

Ânsia de rasgar o ventre grávido da fera
de arrebatar das mãos do medo
o germe implacável da semente portentosa
da chegada

Nas curtas horas realmente longas
a jornada insana das lutas vitoriosas
o grito no caminho firme para a vida
o meu grito na tua voz
o meu desejo nos teus olhos



Agostinho Neto

Pedido

























Imagem de Persikoff, via "O Jumento"




Só te peço esse olhar doce
Profundo, naufragado
No teu olhar.
Essa tão doce promessa
De beijar submersa
Nos teus lábios de sangue...
...para fazer as coisas mais impossíveis do Mundo!





António Cardoso

Panamor

















Foto daqui




nos braços da onda driblada pelo menino
há uma força ancestral que ele desconhece
que levou nossos antepassados
para o outro lado do mar

a flor estéril da mandioqueira
diz que há uma raiz profunda na terra
que alimenta

mesmo no orgasmo infecundo da prostituta
na noite insone à espera da Aurora
existe o Amor
e até na violência do blindado defendendo
a Vida
existe o amor

o Amor existe
o Amor está
nas cinzas espalhadas dos corpos
incinerados no Oriente
à espera da encarnação

o Amor existe
o Amor está
no encanto das coisas singelas da vida
na beleza sem limites
das partituras de Mozart e Beethoven
na exuberância escaldante do batuque africano...

o Amor existe





Domingos Florentino

Uma planta, plantando sonhos


















No canto do fim do mundo
há uma flor
contando histórias

À porta da minha casa
há uma planta
plantando sonhos



Domingos Florentino

Acolho-me

























acolho-me ao lençol do teu cabelo
no amor pedido do teu rosto ilúcido
e entrego-me à irisada luz que zela
os lábios na sombria flor cedida.
a sépala descobre o centro dela
uma a uma dá o corpo à descoberta
na liturgia dos sentidos dados
à reza na capela como oferta.
cavalgo na palavra que me dás
alado nos pequenos montes eros
percorro os sons cativos dos teus ais
aromas luzes são momentos raros.
passeando pela flor acesa o fogo
centelha a cada pétala que apago.



José Félix

Mozart





Fantástico!

Poema de Alforria

























Eu deixarei
que o dia amanheça o teu sorriso
por entre os espaços marfíneos
das tuas colinas desalinhadas.

Eu deixarei
que o sol penetre os poros adormecidos
das fronteiras escondidas
nas lezírias do teu sentir.

Eu deixarei
que o vento arraste areais desérticas
e sobre ti as faça cair
como nuvens de pérolas,
que brilharão nos olhos da criança
que continuarás a ser
Eu deixarei



Anny Pereira

Viagem


















Aparelhei o barco da ilusão
E reforcei a fé de marinheiro.
Era longe o meu sonho, e traiçoeiro
O mar...

(Só nos é concedida
Esta vida
Que temos;
E é nela que é preciso
Procurar
O velho paraíso
Que perdemos).

Prestes, larguei a vela
E disse adeus ao cais, à paz tolhida.
Desmedida,
A revolta imensidão
Transforma dia a dia a embarcação
Numa errante e alada sepultura...
Mas corto as ondas sem desanimar.

Em qualquer aventura,
O que importa é partir, não é chegar.



Miguel Torga

Comunicação amorosa

















À jacto
quero entregar-te
o meu zambeze
esperançado
no jeito
carinhoso
acolhedor
do teu mar, amor!



Domi Chirongo

What a wonderful world

Poemas de dôr, de sofrimento, de opressão... poemas de 24 de Abril.























Poema quarto de um canto de acusação



Há sobre a terra 50 000 mortos que ninguém chorou
sobre a terra
insepultos
50 000 mortos
que ninguém chorou.

Mil Guernicas e a palavra dos pincéis de Orozco e de

Siqueiros
do tamanho do mar este silêncio
espalhado sobre a terra

como se chuvas chovessem sangue
como se os cabelos rudes fossem capim de muitos
metros
como se as bocas condenassem
no preciso instante das suas 50 000 mortes
todos os vivos da terra.

Há sobre a terra 50 000 mortos
que ninguém chorou

ninguém...

As Mães de Angola
caíram com seus filhos.



Costa Andrade
















O Último Adeus Dum Combatente


Naquela tarde em que eu parti e tu ficaste
sentimos, fundo, os dois a mágoa da saudade.
Por ver-te as lágrimas sangrarem de verdade
sofri na alma um amargor quando choraste.

Ao despedir-me eu trouxe a dor que tu levaste!
Nem só o teu amor me traz a felicidade.
Quando parti foi por amar a Humanidade
Sim! foi por isso que eu parti e tu ficaste!

Mas se pensares que eu não parti e a mim te deste
será a dor e a tristeza de perder-me
unicamente um pesadelo que tiveste.

Mas se jamais do teu amor posso esquecer-me
e se fui eu aquele a quem tu mais quiseste
que eu conserve em ti a esperança de rever-me!



Vasco Cabral





















Pecado original



Passo pelos dias
E deixo-os negros
Mais negros
Do que a noute brumosa.

Olho para as coisas
E torno-as velhas
Tão velhas
A cair de carunchos.

Só charcos imundos
Atestam no solo
As pegadas do meu pisar
E fica sempre rubro vermelho
Todo o rio por onde me lavo.

E não poder fugir
Não poder fugir nunca
A este destino
De dinamitar rochas
Dentro do peito...



Corsino Fortes


















Milagre obstétrico



As lampadas da cidade
fundiram-se todas

e numa das esquinas
da grande aldeia de cimento
um latão urbanizado
pariu um pirilampo...

Glória ao novo ser
que nasceu ao anoitecer.

O jornal não deu a grande notícia
- os fotografos tinham as máquinas
aguardando o plano superior.

Contudo
no velho latão urbanizado
o pirilampo brinca e chora
(como alguns meninos)
luzindo com o satírico brilho
da esvaziada lata de sardinhas
da "ração de combate".



António Pinto de Abreu



















Serviçais



O aroma dos mamoeiros
desde a grota.
Os moleques sonham cazumbis
nas lajes do secador.
Lenta, a narrativa
dos serviçais sentados
no limiar da esperança
é palanca negra a derrubar
paliçadas e fronteiras,
palanca a devorar a distância,
a regressar a Angola,
aos muxitos do Sul;
é chuva grossa
empapando os campos de Cabo Verde
a germinar o milho da certeza.

Trazem na pele tatuada
a hierarquia das relíquias
alimentando-se de um sangue
desprezado
que elege os magistrados
da morte.
Amanhã os clamores da resta
acordarão as longas avenidas
de braços viris
e a terra do Sul
será de novo funda e fresca
e será de novo sabe
a terra seca de Cabo Verde,
livres enfim os homens
e a terra dos homens.



Maria Manuela Margarido



















Poema Ancestral


Lembra os dias antigos
Em que cantavas a pureza
Na nudez dos teus passos e gestos
Ou dançavas na inocente vaidade
Ao som dos «babadok».
Relembra as trevas da tua inquietação
E o silêncio das tuas expectativas,
As chuvas, as memórias heróicas,
Os milagres telúricos,
Os fantasmas e os temores.
Tenta lembrar a herança milenar dos teus avós
Traduzida em sabedoria
E verdade de todos.
Recorda a festa das colheitas,
A harmonia dos teus Ritos,
A lição antiga da liberdade,
Filha da natureza.
Recorda a tua fé guerreira,
A lealdade,
E a ternura do teu lar sem limites,
Nos caminhos do inesperado
Ou no improviso da partilha definitiva.
Lembra pela última vez
Que a história da tua ancestralidade
É a história da tua Terra Mãe...



Crisódio T. Araújo























A Portugal



Esta é a ditosa pátria minha amada. Não.
Nem é ditosa, porque o não merece.
Nem minha amada, porque é só madrasta.
Nem pátria minha, porque eu não mereço
A pouca sorte de nascido nela.

Nada me prende ou liga a uma baixeza tanta
quanto esse arroto de passadas glórias.
Amigos meus mais caros tenho nela,
saudosamente nela, mas amigos são
por serem meus amigos, e mais nada.

Torpe dejecto de romano império;
babugem de invasões; salsugem porca
de esgoto atlântico; irrisória face
de lama, de cobiça, e de vileza,
de mesquinhez, de fatua ignorância;
terra de escravos, cu pró ar ouvindo
ranger no nevoeiro a nau do Encoberto;
terra de funcionários e de prostitutas,
devotos todos do milagre, castos
nas horas vagas de doença oculta;
terra de heróis a peso de ouro e sangue,
e santos com balcão de secos e molhados
no fundo da virtude; terra triste
à luz do sol calada, arrebicada, pulha,
cheia de afáveis para os estrangeiros
que deixam moedas e transportam pulgas,
oh pulgas lusitanas, pela Europa;
terra de monumentos em que o povo
assina a merda o seu anonimato;
terra-museu em que se vive ainda,
com porcos pela rua, em casas celtiberas;
terra de poetas tão sentimentais
que o cheiro de um sovaco os põe em transe;
terra de pedras esburgadas, secas
como esses sentimentos de oito séculos
de roubos e patrões, barões ou condes;
ó terra de ninguém, ninguém, ninguém:
eu te pertenço. És cabra, és badalhoca,
és mais que cachorra pelo cio,
és peste e fome e guerra e dor de coração.
Eu te pertenço mas seres minha, não





Jorge de Sena

Gosto de te ver assim vestida
























Gosto de te ver assim
vestida
com a túnica e o manto
a envolver-te o corpo todo.
Assim te vejo, sempre
que te recordo nas ausências,
quando me apetece despir-te
lentamente
recolhendo as dobras e as pregas
desapertando o alfinete de prata
deixando cair tudo a teus pés
e ver o esplendor
da tua nítida nudez…



Alexandre de Castro

Vida tão estranha





São de veludo as palavras
Daquele que finge que ama
Ao desengano levo a vida
A sorte a mim já não me chama

Vida tão só
Vida tão estranha
Meu coração tão mal tratado
Já nem chorar me traz consolo
Resta-me só o triste fado

A gente vive na mentira
Já nem dá conta do que sente
Antes sozinha toda a vida
Que ter um coração que mente


Rodrigo Leão

Nem sempre foi assim…
























Nem sempre foi assim
quando tudo entre nós ficava branco
tu passavas o tempo nas minhas mãos


a contar os barcos que saíam para o mar
e gostavas de imaginar outros horizontes
a vida está sempre a mudar, dizias-me,
e eu sabia que nada mais te poderia dar
além do quarto alugado onde dormíamos.



Alexandre de Castro

A última marrabenta
















Quando o chão
estiver bem longe
terei sonhado
bem alto
e quando
o sorriso
forçar tua mão
a pousar em mim
estaremos no altar, baby
no altar
marrabentando o palco
como nunca o
fizemos,
quando o chão
estiver bem longe
a felicidade
será a dois
e depois o futuro
outro choro
reprodução
de nós mesmos

Quando o chão
estiver bem longe
terei sonhado
bem alto
e quando
o sorriso
forçar tua mão
a pousar em mim
estaremos no altar, baby
no altar
marrabentando o palco
como nunca o
fizemos,
quando o chão
estiver bem longe
a felicidade
será a dois
e depois o futuro
outro choro
reprodução
de nós mesmos.



Domi Chirongo

AmARTE
























"Red nude" de Marc Chagal




Quero
amar-te
diante
desta luz
lunar
fora
do marte
num’aldeia
de laranjeira
sem herói
nem mártir.


Domi Chirongo



Socopé


















Os verdes longos da minha ilha
são agora a sombra do ocâ,
névoa da vida,
nos dorsos dobrados sob a carga
(copra, café ou cacau - tanto faz).
Ouço os passos no ritmo
calculado do socopé,
os pés-raizes-da-terra
enquanto a voz do coro
insiste na sua queixa
(queixa ou protesto - tanto faz).
Monótona se arrasta
até explodir
na alta ânsia de liberdade.



Maria Mauela Margarido

Sempre mar


















Cabo Ledo, Julho de 1996




Mar vezes quando o sol nos enche os olhos
e no promete mais vezes no olhar
fecham-se os olhos no rolar do tempo
de ver andar o antes e o depois
numa miragem que se chama mar
Mar prometendo mais vezes de vermelho
luz transformada num redondo
esquivo
um sol de devagar como descendo
da guerra sem estrondo
na lúcida mutação
de sempre mar.

E a tarde é todo um fim
um beijo tão molhado despenteado
como uma boca a tua boca à beira-
mar depois das ondas e diferentes
princípio de um começo como a noite
antes de o sol se adormecer aquático
formam-se linhas como os pensamentos
linhas carícias que nos fazem ver
que entre os passos da areia e os nossos movimentos
há sempre um pôr-do-sol
de um sol para nascer.



Manuel Rui