A Ignorância do Poeta




O poeta contempla o mar
no agoniado tédio da tarde.
Caminha ao som de seus passos
ombros recurvos mãos nos bolsos
perseguindo a sua sombra.
O cão que lhe roça a solidão
não tolhe o verso escrito da memória.
Os namorados não o fitam.
De esguelha admira a inocência
dos gestos amorosos.
À sombra de jacarandás
percorre o trajecto
sobre as folhas silenciadas.

O poeta ignora mas a direcção
leva-o ao coração dos homens.


Nelson Saute
in A Pátria Dividida
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