Esta noite sonhei...

























Poema de Amor

Esta noite sonhei oferecer-te o anel de Saturno
e quase ia morrendo com receio de que ele não
te coubesse no dedo


Jorge de Sousa Braga

Máscara
























Seja a noite

A desconstrução da idade.

Mármore. Putas. Dedos infiéis.

(Estou só a brincar com os dedos!)



Desde há algum tempo

Eu próprio sumi em mim:

Os dedos bebem aços de fel

E o mármore veste-me os sonhos de frio!





Cristóvão Luís Neto

Mbanza Congo








Mbanza Congo, um espaço a surgir em breve.

I Am An African



























Waiting, de Bernard Mensah




I am an African
Not because I was born there
But because my heart beats with Africa’s
I am an African
Not because my skin is black
But because my mind is engaged by Africa
I am an African
Not because I live on its soil
But because my soul is at home in Africa


When Africa weeps for her children
My cheeks are stained with tears
When Africa honours her elders
My head is bowed in respect
When Africa mourns for her victims
My hands are joined in prayer
When Africa celebrates her triumphs
My feet are alive with dancing


I am an African
For her blue skies take my breath away
And my hope for the future is bright
I am an African
For her people greet me as family
And teach me the meaning of community
I am an African
For her wildness quenches my spirit
And brings me closer to the source of life


When the music of Africa beats in the wind
My blood pulses to its rhythm
And I become the essence of sound
When the colours of Africa dazzle in the sun
My senses drink in its rainbow
And I become the palette of nature
When the stories of Africa echo round the fire
My feet walk in its pathways
And I become the footprints of history


I am an African
Because she is the cradle of our birth
And nurtures an ancient wisdom
I am an African
Because she lives in the world’s shadow
And bursts with a radiant luminosity
I am an African
Because she is the land of tomorrow
And I recognise her gifts as sacred



Wayne Visser
(04.11.05)

Permuta


















Olha: eu troco estas mãos vazias
pelo azul cintilante
feito filigrana
que circunda o mínimo de negro
nesses olhos de me olhar de amor.

Olha: eu troco estas mãos
de fazer poesia
de te cantar distante
pelo poema do teu olhar em mim.




Luiz de Aquino
in Meus poemas do Século XX

Tambores pela paz

















Dances with african drums, Justeen Brown







Tocam os tambores,
difundindo por toda a parte os sons
que anunciam a Paz...


Ecoam pelos ares os cantares,
acompanhando a forte batida dos tambores
que enaltecem a Paz...


Oh! Quão hábeis são essas mãos
que batucam os tambores.
Como são melodiosas as vozes
que entoam os cânticos!


Uma mistura de sons e ritmos;
Mistura de gentes,
formando o arco íris da concórdia
num baile único.


Os Tambores pela Paz batucam forte, e tabucarão sem cessar,
até fazerem chegar o eco
ao mais recôndito dos lugares da portentosa Angola.





Celestina Fernandes

A língua é o exílio do que sonhas

















Pôr do Sol na Ilha de Moçambique, foto de Guido Aldi






O imaginário
tem o rosto feminino,
do mar
a ilha é a sua voz
que explode.
Tu és o irreal
que paira sobre os outros
as coisas.
A força da ausência
O que sonhamos e
nos foge entre
dedos: a areia.
Tu és a réplica
do oculto
a ilha a beleza
cruel o pleno
nas dores do vazio.



Virgílio de Lemos
(Ilha de Moçambique, 1952)

Padoce de céu azul



















Bô é coisa mais linda
Que já m`oiá na céu de Cabo Verde
Padoce de céu azul
Que núvem ninhum consegui escondê

Já m dzêb êl tcheu vez
Ma nunca bô levam a sério
Dêss confusão que vida é
Bô é únic beleza que ta restam

Crêtcheu, crêtcheu
Once forever once for all
Crêtcheu,crêtcheu
Once forever you`re the one

Bô é darling,poesia, riquesa
Amor e compreênção
Padoce de céu de Verão
Qu`incompreênsivelmente caím na nha mon

Mar, dam bô compreêncão
Quê pa calmam ess nha coração
Bô quê nha Deus
Bô quê nha mundo



Valdemiro Ferreira




Lura

A utopia dos olhos escancarados





















Utopia, de Tero Tanninen





Se num momento de loucura
acaso arriscares acima do tédio
e afoito sozinho dobrares
a agreste solidão da esquina dos dias,
poderás então entrever
por entre as brumas do tempo
a imensa multidão e o verde prazer
das tuas mais urgentes utopias.

Se depois com ardor escreveres
- ridícula como o poeta a dizia -
uma simples carta de amor
cuja verdade ofereça fogosa o seu pudor
sinceros significados tão prementes
que a ouro fiquem bordados
no seio nu das palavras inexistentes,
imune farás tombar do muro os pecados
com que este presente impune
procura sarcástico esconder-nos o futuro.

Se porem impossível te for
a sangria das palavras a sério
e ao cansaço sem outra saída
com fúria não conseguires opor
a beleza dum punho bem apertado,
arrepia caminho e não ouses.
Nunca ouses monstro malfadado
dobrar a esquina deste tempo
de cobardias prenhe e silêncios cheio.

Porque só o amor mata a hipocrisia
e reconhece os homens iguais
porque para além deste dia
só de olhos escancarados se sonha a utopia.



Adriano Alcântara
Cadernos "Diálogo"

Efeméride

























Estátua de Freddy Mercury, em Montreux.
Foto de Alina Vorob,
aqui




Freddy Mercury completaria hoje 60 anos.
Sem qualquer dúvida uma das melhores vozes de todos os tempos.

Rapariga
























Cresce comigo o boi com que me vão trocar
Amarram-me já às costas, a tábua Eylekessa
Filha de Tembo
organizo o milho

Trago nas pernas as pulseiras pesadas
Dos dias que passaram...
Sou do clã do boi -

Dos meus ancestrais ficou-me a paciência
O sono profundo do deserto
a falta de limite...

Da mistura do boi e da árvore
a efervescência
o desejo
a intranquilidade
a proximidade
do mar
Filha de Huco
Com a sua primeira esposa
Uma vaca sagrada
concedeu-me
favor das suas tetas úberes.




Ana Paula Ribeiro Tavares

Uma Onda e África




















Pintura de Bj de Castro





1
Uma onda
é amar-te e medo
ciúme deste mar
tan-tan do meu naufrágio
numa canoa de pétala
de acácia

2
Uma jangada
que me tragas feita
de troncos de palmeira
ou de um barco de negreiros
afundado
e dentro de uma concha
uma notícia

3
Amar-te é esta distância
e junto ao mar
senti-lo viajado
azul e com estrondo

4
Amar-te é uma fogueira
sobre a onda
sítio de uma lavra
de milho ou mandioca
na areia que me foge
sob a espuma

5
Amar-te é isto
com o teu perdão
não agarrar a onda
e mastigar-lhe o sal
que apenas sei
ter já beijado
a tua praia

6
Uma onda
que penso.
Outra em que reparo.
A mesma em que pensei
e que retorna ao mar.

7
Porque ficar a onda
— o impossível
(dizem que não havia
mar
remos de sol
nem barcos afundados).




Manuel Rui
A Onda

Há dez anos



















Amanheceu quente
cinzenta
e triste.

Triste
Como todas
as manhãs de cacimbo

Triste
Como todas
as manhãs de partida

Muito diferente
de uma outra
quente
e luminosa
á hora da chegada

O horizonte
chamou por mim
Um olhar
Pensamentos em vórtice
corpo em chamas.
Queimada na savana

E estava ali
Ainda

A Estrada de Catete
o pulsar da cidade
passaram por mim
com uma estranha
calma
silêncio

O bulício
de todos os dias
partira
para onde?

Tudo parecia mover-se
em silêncio...

Silêncio quebrado
pelos acordes
de A song for guy

Os mesmos acordes
doces
belíssimos
empolgantes
do momento da chegada...

Há dez anos
Foi assim

Tenho
os acordes
preparados
para o regresso

Depois...
deitá-los-ei fora
esquecê-los-ei.

Não voltarei
a partir embalado
por eles.



Cacusso