Tema para um possível poema



















Com os desengraxados
meus autopés de luxo número 40 tipo escuro
de biqueira estilo metatarsos de nascença
directamente autopisando os alcatrões no verão
percorro este universo emigrando
diariamente no interior africano
deste território minha pátria
escondido no meu País.

Mas não interessa
aprofundar os trinta dias seguidos por mês
sem uma única folga sequer aos domingos.
Que os meus olhos no tabu das montras
das sapatarias consomem mil modelos
de sapatos subjectivos
incompráveis por mim.

E no limiar dos restaurantes exóticos
ao meu nariz agredido pelo cheiro da comida
chegam bifes totalmente abstractos
e Pavlov põe-me a mastigar
saborosos menus de nada.

Amigos.
Naturalmente se eu fosse poeta em vez de gente
isto seria com certeza o tema de uma poesia africana
com meias solas de asfalto nos pés descalços
sapatos por comprar
comida por comer
e muito povo à mistura.

Mas como sou apenas um homem como toda a gente
a transitar na cidade com autopés de luxo número 40
em vez de uma poesia mais ou menos africana
FICA ASSIM!



José Craveirinha
(1964)
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