Identidade











Costumo definir-me a mim própria como a página cem de Gedeão,
à procura da cento e vinte e sete.
Cresci e brinquei com Clarissa, sob um pé de laranja lima; fugia à
escola para passear no rio Mazungue, numa canoa chamada Rosinha.
Tive um cão que se chamava Corto Maltese e com ele percorri os
Jardins Suspensos da Babilónia, à procura da árvore dos direitos
humanos.
Aprendi a amar com Florbela Espanca e Alda Lara. Namorei com
Viriato, fui mulher com Vinícius e descobri que o amor só é eterno
enquanto dura; sofri amor e saudade com António Jacinto, em todas
as cartas que não enviei.
Tornei-me “gente” com Manuel Bandeira, “Che”, Neruda e muitos
mais. Com eles andei em busca da identidade perdida na infância,
esquecida no casamento e mais tarde reencontrada na solidão do
quotidiano.
E quando um dia tiver de ser pó, cinza e nada e não mais com Jorge
Amado poder pastorear as noites e a vida, quero fazê-lo à Mário de
Sá Carneiro e tal como ele ir de burro: a um morto nada se nega;
assim que não me falte champagne e Albinoni, com muito violino
à mistura (de Pagannini, ou até mesmo só aquele do telhado…).




Anny Pereira
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