«O Graxa»




-Graxa, patrão?
O joelho preste
aflito
dobrou.

Mestres no vaivém
ritualista diário
de rolar bola de funge
em molho bom de dendem
já os dedos calejados
palpam
untam
tamborilam
o sapato autoritário.

Entre pano e calçado
ritmo estala.
Panquepam
Panquepampam
Panquepam
Panquepampam

É o batuque que fala,
Ora exultante, ora trágico,
é o batuque que fala
na linguagem remota
das matas de Angola.

Panquepampam
Panquepampam

Sibilino mágico
se evola
um recado distante
de tribos sobados.

Panquepampam
Panquepampam
Panquepampam

Pano e calçado
joelho dobrado
mãos que batucam
sons que se formam
e se transformam

palavra
existência
grito
presença.

na esplanada
imperativo
reclamativo
o batuque.

Batuque semeco
nos ouvidos tapados
nos olhos vazados
nos rostos parados

Panquepampam
Panquepampam
Panquepampam
Panquepampam
Pam!

-Pronto, patrão, cabon!
miliquinhento.

O bruáa regressa recendescente
Sensacionalista nas palavras ocas
Urgente na busca do tempo perdido
Como se nada tivesse acontecido.
Grada.

No fim da rua,
já quase a perder de vista,
«graxa» sapateia. E tange
na tosca caixa ensebada
harpejos de quissange
acordes de marimba.

E entoa um cântico langue
de sonâncias graves, roncas.

Entardece.
O sol é todo um coágulo de sangue
É a noite que se aproxima
de pura angústia se nimba.


Maria Eugénia Lima
Binómio de sangue
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